Dezembro 29, 2009

cena do espetáculo de poesia NOVATROVA/2003
bem-vindo(a) ao paperana


do tupi, papel falso, paperana é o vocábulo mais brasileiro
que encontrei para homepage ou site

Fevereiro 06, 2009

p: SP-79, km 9

A rodovia corta toda-toda
a cidade
Traveste-se de avenida
Reveste-se de cimento
e ruma o sul


Os coletivos passam
com suas janelas cheias
repletas de cabeças vazias
cabeças de gente
cabeças de gente
cabeças de gente
cabeças de gente



A rodovia toda-toda segue
enquanto bombeiros e paramédicos
disputam seus mortos



video

A 3km do Cemitério, depois de uma trilha,

pulando-se à cerca, à direita.

p: identidade

Trago comigo uma sensação
De não-pertencimento
Nasci numa cidade distante
e dizem meus documentos
que de lá sou natural

Sequer engatinhava
Quando tornaram-me imigrante
Radicado onde até hoje estou
Na cidade onde o rei é o Cimento
E a rainha, uma elétrica flor

Aqui cresci como fugitivo -
sendo lá, como teria sido?
seria eu outro em outro local
e não mais esse estrangeiro ressentido
da pátria em que não cresceu?

p: rogativo

Oxalá
Chovam palavras
Sobre minha cabeçaE que sobre meu rosto
Deslize o texto
Demoradamente

Oxalá
Possam chover ainda versos
Sobre meus doloridos dedos
E que por minhas costas
Escorra a caligrafia já antiquada
Do século passado

Oxalá
Tal chuva
pelo meu corpo,
depois que o enxágue;
Tal chuva
em minha mente,
depois que a enxugue -
Limpe
Inunde
Revele

Que poesia é assim -
uma coisa de pele

Janeiro 26, 2009

p: a gente

A gente pega chuva
Sem usar as mãos
E sem dispor de mãos
A chuva pega gente

A gente leva a vida
A correr das horas
E no correr das horas
A vida leva a gente

A gente toma vergonha
Fazendo as coisas certas
E fazendo certas coisas
A vergonha toma a gente

A gente tenta comprar o mundo
Com a moeda da incerteza
E com a incerteza da moeda
O mundo tenta comprar a gente

A gente viaja pelo universo
olhando uma simples estrela
E de uma simples estrela olhando
O universo viaja na gente

A gente é muito na imensidão da mente
Meu pensamento é minha tecnologia
Meu bocado de magia, minha vã félosofia
A mente é muito na imensidão da gente

p: constatação

você até já esteve
com a faca e o queijo,
mas hoje... quem te vi,
quem te vejo.

p:poema gordinho

meu corpo é feito
de calorias e alegrias
se a caloria é mensurável
a alegria já não tem medida!

p:down in dante

o pior é descobrir
que no fundo poço
há uma porta lateral
a que se seguem escadas abissais
e que, à entrada da mesma, se lê,
gravado em letras garrafais -
"Deixai toda a esperança
Vós que entrais..."

p:meio

no meio do caminho
o menino
e no meio do caminho do menino
a pedra
a pedra
no meio do caminho do menino

Novembro 25, 2008

p: plaquinha de bar

amor só a vista
obrigado
não insista

Novembro 19, 2008

p: (in)decisão

De tanto buscar nessa vida
essa inspiração que me falta
Deixei de fazer poesia -
Vou levar a vida na flauta...

Novembro 05, 2008

p: scrap

Valeu pela carona de 2.a,
Pelo papo de 3.a,
Por essa lembrança na 4.a,
E pelo beijo de 1.a !

Outubro 24, 2008

p: números

Meu avô morreu aos 56 anos
meu pai tinha 33...
Meu pai morreu aos 56 anos
eu tinha 33...

(Ainda bem que não tenho filhos)

Outubro 16, 2008

p: sentença

...mas nem te preocupes:
no dia do juízo final
teu amor será absolvido
por falta de provas...

Outubro 03, 2008

p: vão

vão
assim
os dias
diante
de mim

vão sim
ah! sim
longe
da tua mão

e estão
assim
legados
a ter fim

enfim
vão-se
ano
após
ano
vão

Sim
vão
No
vão
das horas da ilusão

Que são
meu são
vestígio
de razão
Pois não
Estão
perdidos num desvão

no chão
estéril
dessa tua mão

Que não
mais tem
meu pobre
coração

Que
não
Mais
pode
bater

não
sim
não
(2004)

p: condicional

se um dia me lembrar
da melodia que teu dia-a-dia tem

se um dia me lembrar
daquela dama que a tua cama tem

se um dia encontrar
a chave torta que a tua porta tem

se um dia eu disser
que é mister eu encontrar alguém pra mim

vão saber que encontrei
alguma droga que prorroga o meu fim.
(2004)

p: itupararanga

ytupararanga
pará-akanga
y-paranã

Água no chão
Água no céu
Água no ser
Água na mão

Água no céu
Água no chão
Água na mão
Água no ser

voz da cachoeira
barulhenta
quero ser
cantar sua força
de mil mundos a cair
mas minha voz é presa
e nenhum canto pode extravasar
ytu - queda e represa,
presas do humano olhar

seiva, orvalho,
lágrima, nuvem
vapor, saliva
néctar de flor

suor, neblina
névoa, chuva
sangue, riacho
onda no mar

ytupararanga
pará-akanga
y-paranã

as tuas águas
larga memória
da humana história
daqui e de lá

grita, ó represa
chora, ó cascata
finda tua água
como será?

foz da cachoeira
barulhenta
quero ser

2005

p: luzes do rio acima

Luzes do Rio Acima
Que iluminam minha sina
Cintilante centopéia
Diante dos meus olhos

Como que olhos as enxergo hoje?
Deitadas no monte
Avenidorizonte
Que Patrocino em minha pena
que patrocina meu penar.

Luzes do Rio Acima,
Suave rima no azul do céu,
Se lhes conto a dor que mina
na menina-dos-olhos meus,
Escrever-lhes não poderia -
Faltar-lhes-ia a leitura
Faltar-me-ia papel...

2005

Setembro 30, 2008

p: poema para uma tatuagem

Olha, veja bem,
Sobre o teu nome
Já tão pouco me resta;
Se não quero velório,
Tampouco quero festa.
A vida é essa!
Nunca mais.

Olha, veja bem,
Sobre o teu nome,
Já outro corpo repousa;
O peso de outro amado,
apagá-lo não ousa,
Mas o esconde
Bem demais...

Olha, tudo bem...
Segue teu rumo,
É questão de decência,
Insistir não adianta.
Acabada a paciência,
E nem sou homem
de "veja bens"...

p: diferenças

Se até o mundo
Não é mais o mesmo,
Como que com o verso
Não seria diferente?

Se até o verso
não é mais o mesmo,
Como que com o amor
Não seria diferente?

Se até o amor
Não é mais o mesmo,
Como que com o sexo
Não seria diferente?

Se até o sexo
Não é mais o mesmo,
Como que com a vida
Não seria diferente?

Se até a vida
Não é mais a mesma,
Como que com a morte
Não seria diferente?

Se até a vida
Não é mais a mesma,
Como que com a morte
Não seria diferente?

Se até a morte
Não é mais a mesma,
Como que com a noite
Não seria diferente?

Se até a noite
Não é mais a mesma,
Como que com a manhã
Não seria diferente?

Se até a manhã
Não é mais a mesma,
Como que com o sol
Não seria diferente?

Se até o sol
Não é o mais o mesmo?
Como que com a pele
Não seria diferente?

E se até a pele
Já é bem mais outra,
Como que com você
Não seria diferente,
Se até o mundo
Não é mais o mesmo?

30/09/08

p: Enlatado

Lá vem
o Chávez
Chávez
Chávez

Todos atentos olhando pra tevê.

Lá vem
o Chávez
Chávez
Chávez

Uma historinha bem gostosa de se ver!

p: Sambinha

Os gritos, as broncas, a surra,
os foras, as penas, as dores,
A tristeza, a estupidez, a insegurança
A preguiça, a imaturidade
A culpa é sua, meu amor,
A culpa é sua...
A culpa é sua, e acabou,
É toda sua

As praças, os cantos, as ruas,
As salas, os quartos e o banheiro
A mata de perto, a praia de longe
A viagem de dentro, a cabeça por fora
A culpa é sua, meu amor,
A culpa é sua...
A culpa é sua, e sempre foi,
E muito sua.

p: (Re)trato

Fujo da turba
Vista turva
tanta a lágrima
tanta lástima

E me encontro exatamente no lugar de sempre:

Olhos fundos de pranto
Olhar perdido num canto

Um olho no poema
e um outro olho no prato.